13.8.04

Música, som e surpresa

Num dos comentários ao post sobre "Bullinamingvase", de Roy Harper, um leitor do AiFai recorda a revista "Música & Som". Para milhares de melómanos portugueses de finais dos anos 70 e início dos 80, esta foi uma das publicações especializadas de referência. O mercado nacional era pequeno, característica que não mudou muito desde essa época, e as iniciativas neste campo depressa eram votadas ao fracasso por falta de compradores e/ou de investidores que sustentassem a aventura.
Lembro-me também do semanário "Musicalíssimo" e da dificuldade em conseguir obter-se, em Portugal, cópias de jornais britânicos como o "Melody Maker" e o "New Musical Express". Apesar de existir um público ávido de novidades, os meios de comunicação dedicados ao ramo escasseavam e julgo que sobreviviam com enormes dificulades. As rádios, a começar pela Comercial, iam preenchendo as lacunas, pelo menos no que se refere à divulgação dos discos que chegavam a Portugal com meses de atraso em relação às datas de lançamento nos mercados mais importantes.
A pirataria era, aparentemente, uma ameaça remota e nomes como Jaime Fernandes ou João David Nunes passavam álbuns inteiros nos seus programas radiofónicos. Durante alguns meses, enquanto não juntei dinheiro para adquirir o LP, escutei no meu leitor de cassetes o "Animals", dos Pink Floyd, que tinha sido divulgado, sem interrupções, numa dessas emissões.
Mas o que mais me surpreendeu no comentário ao texto sobre o Roy Harper, é a lista de discos que o leitor afirma deverem ter sido citados pela "Música & Som" entre os melhores de 1977. Considerando que o "punk" e a "new wave" já tinham nascido, não deixa de ser motivo para grande pasmo, à distância de 30 anos, constatar a quantidade de boa música que ainda era, naquela altura, produzida por nomes da "velha guarda".
Jethro Tull, David Bowie, Frank Zappa, Steely Dan, ZZ Top, The Kinks... Um verdadeiro desfile de grandes nomes que, em breve, iriam ser passados à condição de dinossauros pelos jovens turcos. Felizmente, as modas vêm e vão mas a qualidade assegura a longevidade. E muitos dos discos que são referidos nessa lista elaborada pelo leitor do AiFai até evoluiram como o vinho do Porto. Sabem melhor depois de terem passado por um processo de envelhecimento que sublinhou a sua originalidade.

1 Comments:

At 2:01 da manhã, Blogger josé said...

Caro Billy Shears:

A verdadeira imprensa de música em Portugal, em 1977, resumia-se à que vinha de fora. E vinham todas! Rock & Folk ( que me serviu de guia para a lista que apresentei); a Rolling Stone ( a min«ha revista preferida de sempre ( só até meado dos anos oitenta, embora a tenha até datas muito mais recentes); a Crawddady ( ainda há tempos arrematei na e-bay alguns números dos anos setenta)e os jornais NME e MMaker.

Essas publicações faziam a minha felicidade quinzenal ( no caso da Rolling Stone) e mensal, nessa época. Era um deslumbramento, sempre que via uma capa nova no escaparate. Deixe aqui confessar que cheguei a fazer de propósito a viagem a Lisboa, em 1975, em pleno Verão quente, para apanhar um número qualquer da Rolling Stone. Não apanhei senão uma capa e respectiva contracapa, sem o miolo, num caixote de lixo no acampamento dos retornados, por detrás do estádio Universitário. A capa é a de 11 de Setembro de 75 e tem o Mick Jagger. Está aqui na minha frente, "encadernada", desde então. Fala do Reggae que então ainda não conhecia. Mas em 1977, já conhecia muito bem o BOB Marley ao vivo no LYceum, saído no ano anterior.

Quanto ao Punk, não mencionei porque não gostava na altura, do que se ouvia. Nesse ano saiu o Never Mind the bollocks dos Pistols e não ouvi. Só me lembro dos singles: aahaha...waannnnaa beeee, anarchy! Fónix! Na rádio ainda vá! Agora, comprar a rodela? Nem pensar.

Ainda se fosse o Marquee Moon dos Television que o António Sérgio se esforçava por passar...
Nem os Stranglers de No more Heroes me interessavam , embora ouvisse muito bem o Get a grip on yourself.
E os Clash, até Londomn Calling, mais tarde, também não me seduziam.E TOm Robinson...ao longe e sem ouvir!
Os Undertones só apareceram depois.Assim como Ian Dury e até Elvis Costello, com This Year Model.
O Punk, para mim, é fenómeno de 1978-79.

Mas é como dizes: a rádio era o prato forte dos esfomeados por música popular! E havia especialidades raras: o João David Nunes e o Jaime Fernandes eram gourmets de primeira e a merecer as estrelas todas do Michelin. Mas também havia o Espaço 3p e João Lopes e ainda o malogrado Fernando Balsinha que passava Zappa sempre que podia e também Van Der Graaf Generator. E o António Sérgio uma vez, passou Hot Tuna em dose dupla: o Lp ao vivo ouvido num rádio mono, cuja sonoridade de Watch the North Wind Rise ainda hoje é superior ao melhor estéreo que consigo arranjar.

Jornais e revistas portuguesas? Menciono dois:

"Disco, música e moda", que se publicou no início dos 70 ( fiseram a reportagem do Vilar de MOuros de 71) e a revista Mundo da Canção, do Porto e que era fabulosa no género.
Antes dessas publicações havia outra publicação interessante: Mundo Moderno, a cores a ainda nos anos sessenta! Trazia letras da Filarmónica Fraude e há poucos anos consuletei todos os números que existem na Biblioteca da Universidade de Coimbra.

Desculpa o arrazoado, mas apeteceu-me falar disto.

 

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